quarta-feira, 29 de junho de 2011

Arrumando as malas...

Pensei em deixar pra escrever esse texto amanhã, afinal a despedida de verdade não é hoje.. mas começar a arrumar as malas foi me trazendo uns sentimentos estranhos..
      É claro que em algum dia na vida a gente já ouviu dizer que só na ligua portuguesa existe uma palavra igual ou semelhante a palavra "saudade". Nenhuma outra lingua tem uma palavra que consiga expressar a beleza, a tristeza e a importância que essa palavra tem. Tudo bem que isso é um pouco de puxa saquismo da nossa lingua, mas fazer o que.. sou brasileira mesmo e mais, sou nordestina, então meu "saudade" ainda tem um som mais arretado que só o nordeste sabe dar.
      Acho que a saudade chegou hoje, ou melhor nessa ultima semana  de maneira mais intensa extamente por ser a útima semana. Já é quase um mês longe de casa, quase um mês sem ver nem ouvir as pessoas de sempre, sem fazer o de sempre, além do que com a chegada da hora de voltar vem junto a hora de ir e deixar. Deixar o meu novo quarto super já com a minha cara de tão bagunçado que eu consegui deixá-lo, deixar as pessoas e os novos laços construidos aqui, deixar essa realidade de saúde diferente.. enfim.. a saudade chega de todos os jeitos , com todas os outros sentimentos agarrados, com todas as cores que ela pode ter. Das claras até as escuras, fazendo lembrar das tristezas e alegrias vividas aqui e lá.
     Todos esses dias aqui me fizeram custurar na velha colcha de retalhos (a que eu tanto falo o tempo todo.. rs) um novo pedacinho de pano. E cada nova roupa, novo panfleto, novo aprendizado, novo amigo que eu coloco na mala de volta da uma textura diferente a um pedaço dessa colcha.
        No mais... a mala ainda não esta pronta! Até!

Xêru, agora mais perto do que os outros!


"Saudade enorme da minha terra, do meu povo, da minha gente
Saudade do cheiro de casa, do cheiro da maresia, do cheiro da rede, do quarto, do travesseiro, de você...
Saudade da comida esquentando no fogo, dela posta na mesa e da voz estrondosa e macia chamando.. "vem comer"
Saudade dos finais de semana regados a vinho na beira da churrasqueira
Saudade dos sambas, do cinemas, dos cafés, acarajés, temakis e afins
Saudade de vocês todos e de vocês comigo.
Por que sem vocês eu sou pequena e com vocês eu sou mais, muito mais!"

Sensações...

Hoje o dia foi um máximo! mas começar o texto assim já tem sido rotineiro, né?
Há um dia de ir embora novos aprendizados surgiram e reencontros também. Quando sentei pra escrever esse texto de hoje não sabia qual poderia ser o título, afinal coisas diferentes aconteceram, em lugares diferentes.. Mas ai que com a ajuda de uma amiga bem especial veio o nome! Sensações!

          A manhã hoje foi bem tranquila de atividades. A gente começou  a montar o cenário do arraiá dos serviços de saúde mental daqui que vai ser semana q vem. Ao mesmo tempo várias pessoas de vários serviços que eu já tinha visistado estavam juntas numa reunião de supervisão no mesmo lugar e ai que as despedidas começaram! Tão bom rever todos e dividir com eles o quão foi bom pra mim o periodo que eu passei aqui. Ao mesmo tempo que foi muito bom ouvir que em um mês eu já vou conseguir deixar saudade e receber propostas de vir morar e trabalhar em Bh! rs (mas não adianta não.. Bh só pra férias e rever amigos. O trabalho vai ficar pela Bahia mesmo que ainda precisa de muita gente pra ajudar a construir saúde).
           No fim da manhã antes de ir pra atividade de tarde no Centro de Convivência do Barreiro encontrei seu Damião - o porteiro lá do CERSAM -  que ficou de me dar umas empadinhas que ele mesmo faz pra levar p Bahia!  ( :D )
           Fui pro Centro de Convivência de tarde junto com mais 5 usuários que também estavam indo pra lá e hoje era eu que estava perdidinha na cidade sem fazer idéia de pra que lado ficava o lugar que eu ia. A gente desceu p pegar o ônibus de galera! eu e os outros 5 "doidos"! (rs) Até informação no ponto de ônibus pra uma senhora rolou. Hoje eu e os "doidinhos" literalmente atravessamos a cidade... e como isso foi legal! Todos muito preocupados comigo, onde eu iria almoçar, qual ônibus eu iria pegar, qual era o melhor caminho p eu fazer...  No fim das contas acabei almoçando com "o homem dos relógios". Ele com sua aparência caricatural com 3 relogios nos braços, 4 colares no pescoço, uma boina quadriculada na cabeça, uma jaqueta jeans e uma calça denunciando que ele era cruzeirense doente! rs
          A gente foi almoçar no restaurante popular do Barreiro. Experiência única! O almoço a R$2,00 e um prato muito bem servido. Fui numa idéia de aventura mesmo e chegando lá me deparei com familias inteiras almoçando, trabalhadores de lojas dos arredores, policiais, seguranças, homens de terno e mulheres de salto. E a comida era boa! salada cozida e salada crua, além de sobremesa pra acompanhar. Fiquei com vontade de conhecer outros restaurantes populares, principalmente em Salvador. Me permitir um dia comer em algum na minha cidade...
          Depois que a gente acabou de comer "o homem dos relógios" me explicou como chegar no Centro de Convivência sozinha por que agora a tarde ele ia trablhar. Cheguei relativamente rápido ao Centro e a tarde participei do que eles chamam de oficina de comunicação! aliais.. melhor.. fui entrevistada pela Radio Conviver! Uma experiência fenomenal! rs
         Todas as quartas feiras nessa oficina de comunicação a galera defini as pautas da radio, cada um escreve sua materia e depois eles gravam o programa e o publicam numa webradio na net. Tudo foi muito massa, desde a galera produzindo com suas palavras e ideias as materias, até eles fazendo o programa todos empolgados e depois a gente comentando de como tinha sido a oficina hoje. No final quando perguntei como eles se sentiam ali naquele espaço saiu umas frases bem legais.. e que sintetizam a minha sensação naquele espaço também... "...familia", "a gente participa", "estimula o pensamento da gente", é saúde!", "eu descobri aqui que eu posso cuidar de mim"..

Enfim.. como disse no inicio o dia foi maravilhoso! E com tantos sentimentos diferentes que apareceram hoje pra mim acho até q esse ficou o mais confuso de todos! rs  mas tudo bem..fica agora só faltando o link da rádio.  Mas já estou providenciando aqui pra colocar no blog e divulgar!

E agora que já ta chegando no finalzinho.. beijo na bunda e até segunda literalmente! rsrsrs

terça-feira, 28 de junho de 2011

Freud ou Yung?

Aqui em Bh uma das coisas que eu descobri foi a minha total ignorância sobre a psicanalise, a teoria yungana e a diferença entre elas!
Nas várias conversas que rolaram aqui as teorias vêm se confrontando de inúmeras formas diferentes. Todas claro com sua parcialidade necessária, afinal de contas 80% da galera daqui é psicanalista! rs
Mas isso tem me feito questionar aminha ignorância e com isso me interessar por ler algumas coisas sobre...
Não sei se vai ser mais uma idéia inacabada minha, mas até agora o objetivo é voltar pro meu mundinho e começar a dar uma lida nisso tudo.. quem já souber alguma coisa e estiver afim de dividir será bem vindo! e pros que como eu  não sabem porra nenhuma e estiverem afim de compatilhar o novo também pode ser bom! rs

No mais.. a saudade já ta batendo...

Um xêru em todos!

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Atrasadas...

Nessa semana de feriados até o blog deu uma paradinha..rs e por isso algumas coisas eu ainda n dividi aqui.
            Na terça feira eu tive uma experiência bem interessante com uma associação de usuários de saúde mental. A Suricato!
            Nascida já há alguns anos aqui em Bh ela surgiu a apartir de uma demanda que a rede e os usuários de saúde mental criaram. Depois que os pacientes saiam dos serviços de saúde como inseri-los novamente (ou pela primeira vez)  no mercado de trabalho?
            Inicialmente as coisas eram pequenas com uma ou outra oficina e como diz a Marta ( referência técnica da Suricato!) "pela primeira vez a gente esqueceu o principio da territorialização e colocou os usuários de fato para transitarem pela cidade" Isso porque como existiam uma ou duas oficinas na cidade toda o usuário que quisesse participar teria que se deslocar da sua casa até ela não importa se esta era perto ou longe de casa.
             Aos poucos as coisas foram tomando corpo, as oficinas crescendo, os produtos sendo construidos e a necessidade da especialização e do aperfeiçoamento do trabalho foi surgindo. E é ai q acontece uma coisa bem legal. Começam a acontecer cursos de profissionalização do trabalho! 
            Incrível como as coisas foram se formando a partir de uma demanda da rede e dos usuários e como o trabalho entrou nessa história reafirmando essa idéia de valor! valor do indivíduo e sua classe de trabalhador! E para os que lembraram da frase "o trabalho engrandece o homem" lembremos também que ela é ótima pra quem explora a força de trabalho de muitos e a vende como mercadoria... acho que essa experiência da suricato nos mostra uma outra forma de trabalhar. Lá o trabalho surgiu de forma coletiva e a produção solidária rege o dia dia. O valor do trabalho aqui se caracteriza pela dentenção de todo processo de produção da mercadoria, da venda, e do compratilhamento da renda final. além da valorização da capacidade de fazer!
            Hoje que a Suricato é maior os cursos são oferecidos por vários profissionais da cidade e também pelos usuários mais antigos da Suricato que já se tornaram multiplicadores. Como diz a Marta, "as parcerias são muito importantes". Não da pra fazer as coisas sozinho! Hoje a Suricato tem oficinas de culinária, marcenaria, mosaico e vende suas peças numa loja aqui mesmo em Bh. Durante a oficina de mosaico na terça de tarde eu com a ajuda dos meninos (claro!) comecei a construir uma peça que vai ser o slogan do  blog! e pra quem ta fazendo isso pela primeira vez até q tá ficando bonitinho! rs
            Enfim.. outra coisa massa que rolou na terça foi a primeira atividade do dia. Eu fui conhecer a proposta da nova marca da Suricato. pelo que deu pra entender (me corrijam meninos! rs) A Suricato entrou num projeto de uma empresa privada daqui da cidade que oferece um Curso de Marcas e Estratégia de marca e os alunos do curso tem que num periodo de um mês montar uma proposta de marca e uma estratégia pra ONG que esta envolvida nesse projeto. Pois bem, nesse dia a finalização do trabalho aconteceu com a exposição do produto do curso pros usuários da Suricato. Foi muito bom! Primeiro porque a dedicação que a galera do curso colocou pra montar tudo era visivel em cada parte da aprensentação, fora que em todo momento desde a criação do esboço da marca que aconteceu junto com os usuários da Suricato até a finalização do layout da apresentação a idéia da coletividade da Suricato estava presente.
            O mais legal, sem dúvida foi ver como isso vai fazer com que a Suricato cresça  em termos de mercado mesmo. E mais legal ainda foi ver os meninos da Suricato se quesitonando se a produção por conta desse crescimento teria que ser maior, se eles iriam dar conta, se isso n ia fazer com que eles mecanizassem o trabalho. Era tudo muito coerente e bonito de ver!
            No final quando fui conversar com o Hugo do curso de marca falei do meu blog e de que eu achava legal postar aqui um vídeo que eles montaram falando da construção do projeto dentro da Suricato. E claro que durante a conversa varias coisas legais sairam.. inclusive a parte de que " a Suricato contagia!" e contagia mesmo! A forma de trabalho, as possibilidades que ela apresenta pros usuários...
            A Marta chegou a me falar que nada disso nasceu e cresceu rápido. Demorou e tiveram varios percaussos, mas a Suricato continua caminhando. E na moral o que eu acho mais interessante nisso tudo é que pra gente da saúde isso pode significar muito. Quantas vezes a gente pensou em organizar uma cooperativa com os moradosres de uma região e não sabia nem por onde começar? Acho que a Suricato pode ser uma experiência muito massa nesse sentido. E de novo como disse a Marta " na graduação a gente não aprende a montar coletivos. Mas a gente tem que se jogar e aprender a fazer essas coisas novas". E uma ajudinha dos amigos que já tem a manha é ótimo nessas horas! rs
Enfim... com certeza é mais um texto que podia estar no "Fugindo das receitas de bolo.. experiências interessantes!"

xêru em todos!

ps: quando eu conseguir o video eu posto aqui!

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Apesar da dificuldade pra chegar no lugar, hoje valeu a pena!
        Minha visita foi a uma reunião dos monitores do projeto Arte da Saúde. É uma atividade realizada na atenção básica voltada pra criança e adolescente. Criada por uma psicologa há mais ou menos 18 anos começou com a construção de algumas oficinas de artesanato. Hoje já foi incorporado à politica de saúde de Bh e consegue costurar a rede de saúde da cidade. Isso de costurar a rede é meio confuso, né? mas são estratégias que a gente quando consegue desenvolver são interessantes pra não perder os usuários quando eles saem dos consultórios. Talvez esse texto de hoje estivesse melhor alocado na parte do blog "Fugindo das receitas de bolo... estratégias interessantes" por isso acho que vou terminar de falar do projeto lá.
          Na quarta feira eu vou participar de uma das oficinas. Tô ansiosa pra ver como vai ser...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

enfia os seus 11 anos de estudo no saco!!

Hoje eu passei pelo serviço de álcool e drogas, lugar que eu estava super na espectativa pra conhecer. A unidade de tratamento de álcool e outras drogas (CAPS AD ou CERSAM AD) foi a primeira que me fez olhar e me encantar pela saúde mental na Bahia.
        Trabalhar com a discussão de álcool e outras drogas é diferenciado pra mim. Já tinha percebido isso, mas hoje foi colocado de forma mais explicita a diferença do perfil de pacientes dos CERSAMs e dos CERSAM AD. Aqui os pacientes não são psicóticos ou neuróticos, quando existe a relação do uso de drogas com esses outros sintomas eles são tratados nos CERSAMs. Sempre achei que o que me facinava nesses pacientes era que eles desde a hora que entravam pela porta jogavam na minha cara que o problema deles não era só de ordem físiopatológica. Tinha que haver algo a mais e eu tinha que aprender a enxergar isso. Nos psicóticos se a gente quiser tem como fechar os olhos pra o outro lado do problema. Não que ele não exista, mas a ciência a todo momento reafirma a presença ou ausência de neurotransmissores, enzimas, receptores que estam em maior ou menor quantidade nestes pacientes, tentando sufocar todo a realidade que essas pessoas estão submetidas com suas "evidências científicas". Com o usuário de alcool ou outras drogas é como se ele gritasse pro profissional que existe alguma coisa na vida dele acontecendo e que o esta levando a esse tipo de comportamento.
        A discussão da loucutra pra mim sempre foi interessante porque a gente ta falando daquilo que a sociedade nega. Daquilo que por ela não entender ou não saber como conduzir ela exclui. Não é muito diferente dos marginais, das putas, dos pretos.. mas isso são outros quinhentos.
       Voltando pra hoje, participei de 2 oficinas uma com targetas (pedaços de papel) onde cada um escrevia um objetivo, beneficios ou dificuldades do tratamento e outra de filmes. Definitivamente essa galera tem muito o que falar! É claro que alguns mais inibidos do que outros, alguns com mais capacidade de elaboração, mas todas essas diferenças são super importantes de estarem no mesmo espaço. É como se esse convivio com o "diferente" aqui também fosse terapêutico. De uma certa forma o colega que sabe falar mais, ou é menos timido, ou estudou mais tempo, ou é mais bonito, no frigir dos ovos se assemelha a todos pelo fato de serem iguais na necessidade de tratamento. Ouvir do colega se mostra bem mais tranquilo do que ouvir do médico, ou do psicólogo, ou do enfermeiro ou do terapeuta ocupacional...
        Durante o dia conversei com lagumas pessoas, hoje mais profissionais do que pacientes e algumas duvidas surgiram... já a algum tempo eu tenho percebido como os profissionais de cada serviço diferem bastante em pensamentos e práticas. Dai que eu lembrei de ontem que foi um dia bem legal e na maior parte dele eu participei de reuniões e só não escrevi sobre porque ainda não consegui me organizar pra pensar e estruturar o que eu absorvi. E o engraçado é que na saúde a gente as vezes defini metas pra a estruturação de um serviço de qualidade num lugar: rede estruturada e profissionais trabalhando numa lógica diferenciada. Aqui em BH que a rede por mais problemas que ainda exista esta estruturada o perfil dos  profissionais grita aos olhos e principalmente quando a gente encontra algo que teoricamente não era pra encontrar. E eu estou falando de exemplos negativos.
           Talvez eu tenha vindo pra cá com uma expectativa muito grande e lidar com algumas decepções não tem sido fácil. É claro que é facil entender que não é porque se trabalha num serviço substitutivo que se pensa e age dferente, mas é no mínimo hipocrisia. Já tinha pensado nisso rodando pelos serviços aqui, mas hoje as coisas foram mais explicitas e se mostraram nos discursos. É claro que com um único contato com a pessoa não tem como definir se ela é bizarra ou não, mas pelo menos da pra suspeitar (rs) e saber que ela é médica da mais nos nervos ainda, ou não.. afinal estranho é quando é diferente, né? Enfim... nenhum lugar esta totalmente pronto e eu tenho certeza que tem muita gente boa que ta nesse meio pra transformar alguma coisa.
             No mais as coisas estão caminhando bem, tô aprendendo pacas varias coisas novas!

xêru em todos!

terça-feira, 14 de junho de 2011

"Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem."
(O bicho - Manuel Bandeira)


            Coloquei o poema de Bandeira porque ainda não assimilei o estado de coisificação a que as pessoas podem ser submetidas e se deixarem submeter. Hoje foi a atividade do 'cuidando da boca' la na Pedreira. Poucas pessoas participando de fato do evento, mas sem dúvida um passo interessante na construção do Consultório de Rua. No final da atividade fomos ainda fazer campo e conversar com alguns usuários. Dentre eles estava um jovem de 20 anos enrrolado em um cobertor no meio fio pedindo ajuda pra gente. Ele contou que estava com fome, sede, taquicardico, tossindo muito com catarro esverdeado e febre há alguns dias. Inicialmente a gente pensou em ligar pro SAMU, mas eles não receberam a nossa ligação como uma demanda urgente. Dai conversamos pra gente tentar leva-lo na emergência do hopital que fica logo na rua do lado onde nós estavamos. Apesar da insistente reclamação com relação a situação na qual ele se encontrava, quando nos dispomos a irmos junto com ele na emergência ele se recusou e disse q naquele momento dormiria um pouco e depois iria sozinho no hospital.
           Esse momento da parede, do ponto que o outro estabelece na relação de que "vc só vai até aqui" é curioso! Ainda mais naquela situação. Porque  a recusa do apoio naquele momento? Porque preferir dormir se ele mesmo se encomodou com a situação a ponto de nos abordar na rua enquanto estavamos passando? Será que todas as reclamações que ele fez, de fato ele as escutou enquanto falava? Será que elas o encomoda mesmo a ponto de faze-lo tomar qualquer atitude? Será q a transformação em bicho ou pior, em coisa já se deu a tal ponto de que ele não se importa mais? Poucas respostas... talvez nenhuma até agora. E eu quero começar a aprender a enxergar mais possibilidades de fazer porque os questionamentos sem apontamentos para uma direção de ação não valem.

xêru em todos!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Menina bordada - Marcelo Camelo

Desordem organizada!

Depois de um final de semana.. no mínimo engaçado.. (rs) acordo hoje num frio safado de BH com a garganta ruim e uma dor de cabeça chata. Mas enfim, acordei, tomei café e sai andando. Cheguei ao meu destino às 8:15 - CERSAM NO (Centro de Referência de Saúde Mental Noroeste. Ele fica ao lado do serviço que eu estava na semana passada.

Um parentese aqui é importante, algumas pessoas que estam lendo o blog me fizeram uma advertencia que acabei achando pertinente. A partir de agora vou me referir às pessoas por codinomes pra evitar qualquer tipo de exposição. E as fotos que forem publicadas na parte do blog "cheirando BH" vão ter sido consentida por cada um. enfim...

           Já estava acostumada a ver o pátio grande do CERSAM com os usuários andando pra cima e pra baixo durante a semana passada, mas hoje quando de verdade eu entrei no serviço logo de cara tomei um susto. Era uma "desordem organizada!" "doido" pra tudo que é canto, andando de um lado pro outro em todos os lugares fora e dentro da unidade. Fiquei um pouco esperando na recepção a chegada da gerente e alguns dos usuários vieram conversar comigo. O primeiro foi o "moço que quer ir pra Salvador". Muito curioso pra saber quem eu era e o que eu estava fazendo ali me fez varias perguntas e respondeu muitas minhas também. Outros apareceram e comprimentaram, mas o "moço que queria ira pra salvador" chamou  atenção. Depois que a gerente chegou e me apresentou à equipe e ao serviço aos poucos fui entendendo a desordem daquele lugar. O que inicialmente era um bando de "doido" por todos os cantos da unidade ia virando um bando de "doido" fazendo alguma coisa por todos os cantos da unidade. Uns estavam tomando banho de sol no pátio, outros conversando com o porteiro, outros cantando, outros lendo revista e ouvindo música. Cada um no seu quadrado!
           A manhã foi bem tranquila, como era primeiro dia ainda estava tentando entender como funcionava o serviço. No meio da manhã participei de um oficina de Liag Gong que a Conceição fez  com todo mundo no pátio. Era engraçado fazer as posições e ver os outros fazendo. Depois todo mundo acabou dançando "papa americano" porque os usuários queriam uma musica mais animada (rs).
           Antes de sair p almoçar a Luzia me chamou pra ir com ela e uma paciente no Hospital das Clinica pra uma consulta de rotina com o cirugião porque ela tem um passado de cirurgia de estômago. Na descrição da paciente ela era uma mulher de meia idade que há 3 semanas estava "dando trabalho" na unidade porque tava muito arredia a qualquer abordagem do profissionais e desacreditada que naquele lugar alguem poderia ajudar ela. Antes de sair peguei algmas coisas sobre ela pra ler, mas nada muito diferente do que já tinham me dito. Pois, depois do almoço fui com a Luzia procurar a paciente pra irmos pro médico e dai que eu finalmente vi a "moça dos fones de ouvido". Branquinha, pequena, apresentando no máximo 35 anos apesar dos cabelos brancos e a primeira vista simpática. Fomos no carro e de fato ela não queria conversar muito. Não tirava os fones de ouvido e sempre dizia q naquela hora não queria conversar. Chegamos ao médico, fomos atendidas até rápido, mas a espera fez ela se comunicar um pouco, mas claro sem tirar os fones de ouvido.
           Quando a gente já tava saindo do hospital ela disse q queria comprar um biscoito integral no mercado. Ai bateu o desespero. "como é que eu vou entrar no mercado com ela?" ´pois, só p eu tomar na minha cara ela atravessou a rua do meu lado, entrou no Extra e foi comigo até a seção dos biscoitos. Engraçado eram as nossas conversas - "olha pra isso, como é que eu tô de sandalia de dedo no supermercado?" - "ouxente, se Gisele Bundchen pode porque vc não pode?" - "mas ela ta no Rio de Janeiro, eu tô em Belo Horizonte". - "faz tanto tempo que eu não venho no mercado que eu nem sei mais como é que anda aqui dentro. Me ajuda?"
           Enfim, seção de biscoitos encontrada e depois de 20min a gente conseguiu escolher qual queria. Ai veio meu novo desespero. A Luzia ligou pro motorista e ele tinha ido embora. "como é que a gente vai voltar de ônibus com ela?" - eu pensei.  Pois, mais uma vez a "moça dos fones de ouvido" me ensinou que antes dos outros que não tem contato nenhum com usuários da saúde mental demonstrarem preconceito eu teoricamente sensibilizada com o assunto posso me manifestar de forma muito preconceituosa. Pegamos o ônibus em frente a uma árvore gigante que tem na rua perto do hospital e a "moça dos fones de ouvido" foi a viagem toda sentada na janela, ouvindo seu programinha de rádio. Voltamos, e já  na rua do CERSAM ela se afastou um pouco da gente, caminhando mais rapido e na nossa frente. Já na unidade, ela continuou com seus fones de ouvido no cantinho do pátio, a Luzia foi resolver os problemas da enfermagem e eu fui atender uma paciente. O dia acabou por volta das 17h e eu com a minha cabeça latejando e  a garganta doendo voltei pra casa. No caminho a lua cheia feito prata chamou atenção porque brilhava num azul limpo. Cheguei e só consegui entrar debaixo da coberta e dormir. Acordei a pouco pra comer e escrever um pouco.

xêru em todos!

sábado, 11 de junho de 2011

"Qualquer forma de amor, já é um pouquinho de  saúde, um descanso na loucura"  Guimarães Rosa.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

turbilhão...

Nunca mais eu digo que um dia foi difícil, a gente nunca sabe como vai ser  o outro. E se ontem foi punk hoje foi insportável!
        Vou me abster de escrever sobre a parte da manhã que sem dúvida foi ótima, mas a vivencia do turno da tarde foi indescritível. Hoje fui novamente fazer a atividade de consultório de rua como na terça feira, mas em outro lugar da cidade - na Av. Andradas. Diferente da atvidade na boca de fumo da Pedreira, na Andradas a gente lida com a população que de fato é moradora de rua. Foi incrível perceber que até chegar no lugar que os meninos ficam a minha ficha ainda nao tinha caido...
A gente começou a atividade em frente a rodoviária porque tinhamos que encontrar duas meninas que estavam fugidas e ameaçadas de morte por terem presenciado um crime e delatado quem o cometeu para a polícia. Depois de um tempo não a encontramos. No caminho indo para o lugar que o consultório costuma atuar na Av Andradas conversei bastante com o resto da equipe foi bom ir dividindo a pequena sensação de impotência frente aquela situação e conhecendo mais sobre as histórias das outras crianças. De repente ao chegar no lugar a equipe se espantou em ver que estava vazio, somente dois meninos estavam dormindo no meio fio e os outros não apareceram. Decidimos esperar um pouco já que durante  a tarde boa parte deles estão em grupo pedindo ou roubando nas ruas da cidade. Enquanto conversavamos mais Luciana apareceu. Sem dúvida o cheiro que exalava dela era mais forte do que qualquer outro q eu ja tivesse sentudo de perto, era como se aquela menna nunca tivesse tomado banho desde que nasceu. Luciana estava correndo e n podia conversar muito porque estava cuidando de carros na rua de cima. Aos poucos, durante a conversa parecia que o cheiro dela ia sumindo, mas de repente ele invadia de novo meu nariz dizendo que ele ainda estava ali presente. 
          Durante toda a tarde poucas pessoas chegaram e a nossa atividade foi reduzida. Pelo que a equipe falou a briga no lugar pelo ponto de droga e as sucessivas agressões que estam acontecendo ultimamente deve estar afastando as pessoas para outro  lugar. Fomos andar um pouco mais pra frente pra  ver se achavamos mais alguem, mas infelizmente não achamos nenhum morador de rua fedorento para abordar, só nos batiamos com pessoas bem arrumadas, cheirando a Calvin Klein ou Victor Hugo (no momento n conseguia diferenciar) fazendo cooper a mais ou menos 10 metros de onde essas crianças dormem e ao lado do Boulevard Shopping...  de repente tudo aquilo foi me causando nauseas todos os ipods presos no braço tocando musica internacional, todos os tenis da adidas e os conjuntos de corrida também da adidas, todo aquele cheiro de perfume importado e a visão do Boulevard Shooping. Só o que eu queria fazer era sair dali pra não sentir mais a Luciana com seu cheiro de sujeira, nem as pessoas com seus perfumes importados. Sabe aquele momento que você queria fechar os olhos e viver na bolha? mas a bolha não existe e o soco foi na boca do estômago quando percebi que eu também consigo passar pelas Lucianas de Salvador sem deixar que o meu perfume permita que eu sequer note a sua presença.
         Quase quando estavamos indo embora os dois meninos que estavam dormindo acordaram e mais 3 apareceram e vieram em nossa direção. Todos com um paninho enrrolado na mão ou uma garrafa com thinner para cheirar e cheiravam nas nossas frentes enquanto coonversavam sobre como eles gostam de jogar no computador ou mostrando o corte novo do cabelo.
           Sai daquele lugar sem saber ao certo o que pensar ou fazer em que lugar me colocar. Só tinha certeza de que eu não queria mais sentir o cheiro do perfume, nem da sujeira, nem o meu que já tinha se misturado nos dois. Hoje mais do que nunca  eu precisava voltar pra casa! E só p piorar a minha situação começou a chover muito e eu me molhei toda antes de chegar em casa, mas eu cheguei em casa! Troquei a roupa molhada por uma quente, comi pão e leite e tô aqui de frente pro notebook tentando diminuir e organizar as sensações. A noite ta fria, mas hoje eu queria muito uma cerveja e vocês perto de mim!

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Hoje o dia foi punkjones! acordei super tarde e cheguei atrasada na unidade. Barril!
      Quando cheguei estava acontecendo uma reunião que aqui chama de reunião de supervisão. De tempos em tempos os profissionais de toda a rede de saúde mental se encontram, desde os funcionários dos centros de saúde  até os da urgência psiquiátrica para discutir um caso "problema" trazido por algum serviço da rede. Nesse espaço existe também um profissional convidado que hoje era uma psicanalista que orientou a discussão do caso. Apesar de ter pego a atividade pela metade foi super interessante participar. Nunca tinha visto aquilo ali acontecer. No mesmo espaço várias pessoas diferentes, com conhecimentos diferentes tentando juntos tomar uma decisão sobre um caso clinico. É claro que esse espaço não é nada harmonioso o tempo todo, até porque é um espaço de exposição do trabalho do outro, de questionar condutas, apontar erros e modificar posturas, mas isso também é legal. Hoje, ao final da discussão a gerente do Centro de Saúde da Pedreira que levou o caso pra discussão fez uma fala bem interessante de reavaliar a forma como a equipe do centro de saúde estava conduzindo este caso e de forma humilde acatando as orientações definidas no espaço. 
          Depois rolou a reunião das microáreas ( Bh é dividido em 9 distritos sanitários e o distrito Noroeste - o que eu estou - se subdivide em 4 microáreas). Um espaço menor onde mais casos são apresentados e é discutido a condução e o referenciamento dos pacientes pela rede (é uma forma também de perceber se algum paciente esta se perdendo na rede de saúde ao ser encaminhado pelas unidades). Engraçado que cada um presta mais atenção e da maior importância ao que lhe parece mais interessante ou diferente. Hoje nesse espaço umas frases foram inusitadas para mim.. como quando alguem na roda comentando sobre uma paciente falou "Ela é violenta, porém é importante perceber que sua escrita é bem delicada e amorosa"... enfim... 
          Outra coisa interessante foi perceber como um serviço realmente precisa do outro e aprende com o outro, como quando, hoje varias informações sobre os pais de um paciente que estava sendo tratado no centro de referência só foram compartilhadas naquele espaço porque o centro de saúde acompanha a mãe, o pai e os irmão dele e sabiam de um contexto não explorado pelo centro de referência. 
            Enfim.. acabou o turno da manhã e a tarde ao que parecia seria bem tranquila. A equipe da tarde era diferente da de ontem, mas tudo foi bem legal. Acompanhei 2 atendimentos com a assistente social Ana Claudia. Dois casos muito distintos e que me causaram sensações e reflexões bem diferentes...
          Vinicius.. 9 anos.. acompanhado hoje pelo pai e mãe vem sendo atendido no CERSAMi há 3 meses. Inicialmente com um quadro de agressividade, mau comportamento na escola e por conta disso exclusão desse menino por parte dessa mesma escola das atividades diárias. Ele vem hoje apresentando um quadro de melhora substancial! Era incrivel me perceber olhando e sorrindo pra cara daquele pequeno que me dizia o tempo todo que estava melhor, e que não eram só os outros que achavam, a forma como ele estava se vendo também era melhor. Lindo ver a percepção de melhora que ele tinha e mais lindo ainda ele contando da felicidade q estava sentindo pelo seu pai estar naquele espaço cuidando e se preocupando c ele.
         Depois veio o Marciel.. 15 anos.. ele n estava na consulta a entrevista foi c D. Maria a mãe dele. Definitivamente.. que relação familiar era aquela! Fui me espantando e sendo sugada de energias a cada minuto, e como falei com Ana Paula depois "era um espanto com a situação e com a falta de espanto daquela mulher com a situação daquela familia". Estava clara uma banalização da situação que me encomodou de um jeito que me fez repensar algumas coisas, incluisive coisas do meu discurso. Foi muito bom perceber depois que minha expectativa higienista (talvez natural) estava me colocando em confronto com a forma com que aquela mãe escolheu pra lidar com a situação dentro de sua casa. Foi bom conversar  com a Ana Paula no final e discutir objetivos da equipe pra aquele caso e chegar a uma conclusão de que o que deviamos fazer era um trabalho de redução de danos e não permanecer na tentativa de confronto com a mãe, a criança e os outros pela forma como eles levavam suas vidas. 
Enfim.. muito massa o dia hoje!

xêru em todos!

terça-feira, 7 de junho de 2011

1º e 2º dia de atividades...

Como já ta tarde e amanhã eu acordo cedo pra começar as atividades vou ser bem rapidinha pra contar essa parte dos dois primeiros dias.
     Domingo quando cheguei por volta das 10:20 na casa da Caca ja começou o frenesi de novidades. Conhecer meu novo quarto, conhecer todo mundo da familia no almoço de domingo, arquitetar os planos pra levar a "baiana" pra conhecer a cidade nova, as expectativas pro inicio dos trabalhos, tudo de forma bem divertida o que fez o dia passar voando. No fim da tarde depois de descobrir qual seria minha rota na primeira semana de serviço rolou cineminha! X-Men bombando no BH Shopping! (rs)
       Pois bem chega segunda- feira e a minha reunião com a Coordenação de Saúde Mental tava marcada pras 15h. Eu com uma ansiedade que não tinha mais tamanho e com medo de me perder no centro de BH e fazer feio no primeiro dia sai da casa às 13:30! (acreditem eu cheguei adiantada 1h no lugar! nem eu tô acreditando nisso!)
       Chegando lá fui recebida da melhor forma possivel. Todos da coordenação me trataram de forma muito receptiva e descontraída o que me fez me sentir super a vontade. Depois de discutir minha grade e conversar um pouco dos meus objetivos aqui, um pouco da rede de BH, das equipes de saúde terminei a reunião com a notícia mais engraçada do dia. Perguntei pra coordenadora como eu deveria ir para as unidades de saúde  e o que eu deveria levar já que eu troxe na mala 4 jalecos, tensiômetro, estetoscópio, termômetro, lanterna... que piada! a melhor resposta que eu poderia ouvir foi que eu tinha q ir de roupa e só! Na hora eu nem acreditei que por um mês eu vou poder me livrar do jaleco branco e mais.. também não acreditei que eu podia ter diminuído o volume da minha mala e ter pago menos de excesso de bagagem!
      Na volta pra casa passei no conservatório de música de BH e também peguei a agenda cultural da cidade e já garimpei os eventos que vão acontecer em junho! 
      Hoje, terça feira, foi de fato o primeiro dia que eu fui á campo. Fiquei pela manhã no CERSAMi, o Centro de Referência de Saúde Mental para Infância. Um lugar lindo que recebe as crianças e os adolescentes com sofrimento mental grave. A equipe que eu conheci foi muito legal, hoje pela manhã ela era formada por um psiquiatra, um psicologo, um terapeuta ocupacional, uma enfermeira, duas tecnicas de enfermagem, duas tecnicas administrativas, duas tecnicas de serviços gerais e um porteiro. Na unidade, em regime de permanencia durante o dia estavam 5 crianças. O Lucas "cabeção", o Dudu, a Thais, a Gabriela e a  Rafaela. Logo quando eu cheguei eu também encontrei com o Davi, mas não deu pra conversar muito porque ele já estava de saída, mas na quinta feira ele vai voltar. Ele é um menino muito interessante.
       O CERSAMi funciona em um esquema de rede referênciando e sendo referênciado pelos centros de saúde da familia, pelas urgências psiquiátricas e por outros setores que não fazem parte diretamente da saúde. Eu ainda estou começando a entender a rede daqui  e por isso não vou saber falar tanto agora, mas aos poucos eu vou me apropriando mais. Pra começar quero só corrigir uma informação que eu dei p algumas pessoas antes de viajar que era que BH não tinha hospital psiquiátrico. Tem sim. Só que eles não são da rede municipal como os serviços substitutivos, eles são estaduais.
        Pela tarde eu fui pra um projeto chamado "Consultório de Rua" numa favela bem grande aqui em BH chamada Pedreira. Pra minha surpresa a idéia desse serviço nasce inicialmente em Salvador na Bahia com o objetivo de trabalhar com a redução de danos com aquelas pessoas que vivem em situação de rua já que a lógica do território, da visita à casa da familia na saúde da familia não se aplica à esses moradores. Hoje a atividade foi de divulgar um evento que vai acontecer na terça feira que vem dia 14 que se chama "cuidando da boca". Uma atividade dentro da boca de fumo na casa de uma moradora com a intervenção do dentista do posto de saúde e o resto da equipe. (Parece que esse dentista é massa, ams eu ainda não o conheci) A idéia surgiu quando começou a se observar que por conta do estado precário de cuidado das pessoas, das queimaduras e feridas que os usuários estavam tendo nos labios por conta do material de que é feito os cachimbos p fumar o crack a saúde bucal dessa população estava empobrecida. 
      Durante  a entrega dos informativos hoje muitas sensações foram chegando até mim. Primeiro de estranheza por estar num lugar tão diferente de tudo que eu já tinha visto e vivido na vida, depois uma mistura de frustração, com realização por estar fazendo uma atividade naquele lugar. Mas acho q uma das coisas mais interessantes foi a sensação inicial de desproteção que depois foi sendo substituída por uma sensação de segurança pela organização com que tudo naquele lugar funciona. Desde o olheiro na frente das ruas fazendo sinal e avisando se é "galo doido" (policia) ou se é "normal" (população) que esta entrando na favela até os moradores e donos dos comercios que ajudam na divulgação das atividades.
         Voltei pra casa de buzu decidida a criar o blog definitivamente hoje! Primeiro porque se não fizesse isso logo eu ia acumular o que falar e segundo porque como tudo é muito novo a ansiedade de dividir e de viver tudo de novo amanhã  é gigantesca. É claro que tem mais coisa pra falar, mais coisa p viver, mas amanhã eu vejo como isso fica.

ps: vou postar as fotos que eu tirei hoje na página "cheirando BH". Pena não ter dado p tirar foto de tarde, mas terça que vem eu tiro algumas  e posto aqui.
ps2: eu juro que os proximos textos vão ser menores! eu vou tentar escrever todo dia p n acumular.
Xêru pra todo mundo!

Começando a exalar o "Cheiro"...

          Pra começar quero ter a sensação de estar escrevendo no meu caderno e por isso não quero ter que me preocupar em escrever correto ou de um jeito diferente do meu habitual.
Fazem dois dias que eu cheguei em Belo Horizonte - MG pra fazer o meu PIDE (Plano Individual de Desenvolvimento). É o estágio opcional do 5º ano de medicina da minha faculdade com duração de mais ou menos 1 mês. Eu optei por faze-lô na área de Saúde Mental aqui em BH já que aqui o pessoal é referência em Saúde Mental no Brasil.
         Mas porque escolher o serviço de Saúde Mental? Responder isso aqui vai me facilitar organizar uma resposta já que em todo serviço de saúde que eu chego aqui o povo quer saber o que é que eu vim fazer, porque eu escolhi BH e porque logo Saúde Mental.
       Primeiro meu encantamento pela loucura começou quando eu entrei na faculdade e mais especificamente no DAPS (meu diretório acadêmico) e  me foi apresentado o tema da Reforma Psiquiátrica. Inicialmente tudo ficou muito na base da teoria  e ela é linda, mas depois com o passar dos anos eu pude conhecer alguns dos serviços substitutivos de atendimento dos pacientes de Saúde Mental e foi ai que eu me encantei mais. Passando pelos semestres na faculdade eu cheguei ao final do 4º ano aguardando o momento que eu teria contato curricular com os serviços de Saúde Mental de Salvador. E esse momento do curso eu posso caracteriza-lo como Decepção! Infelizmente eu tive contato com profissionais e com um serviço que destoava completamente do que eu tinha aprendido até ali e do que eu acreditava. Foi ai que eu decidi juntar o espanto com tudo o que eu estava vendo e vivendo com o momento de construir o meu TCC. Claro que no primeiro momento o objetivo era de fazer uma denúncia com um projeto megalomaniaco que analizasse de forma quantitativa e qualitativa todas as faculdades de medicina de Salvador com relação ao ensino de Saúde Mental e a proposta  da Reforma Psiquiátrica. (rs) mas a realidade veio a tona e a minha falta de disciplina me mostrou que eu n tinha tempo hábil p conseguir fazer tudo isso por isso que o trabalho acabou finalizando só com a analise quantitativa. Pois bem eu corri atrás de um orientador que topasse o trabalho e claro que ele não seria da minha faculdade até porque médico professor meu antimanicomial não existe (vai que entrou algum agora, mas na minha época não tinha mesmo).  Encontrei no meio dessa caça faltando pouco tempo p entregar o trabalho Marcus Vinicius Oliveira um psicólogo muito legal que se disponibilizou a me ajudar e além dele tive ajuda de pessoas mágicas que apareceram no meu caminho como a Aline também psicóloga que me tirou de muitos sufocos durante  a produção do trabalho. Mas enfim, o trabalho ficou pronto é claro que no final ficou muito aquem do que eu gostaria, mas serviu pra que eu crescesse bastante na minha discussão sobre a Reforma. Foi depois dele que eu descidi que no 5º ano eu faria meu PIDE aqui em BH! E a figura do Marcus me disponibilizando o contato com o pessoal aqui da Coordenação de Saúde Mental de BH e a ultra paciência do pessoal daqui com a enrrolação burocrática da minha faculdade que concretizaram de fato a minha vinda. Mas enfim, cheguei!
         Ahh outra coisa que eu acho q vale a pena escrever é porque o blog nasceu e pq ele tem esse nome. Como muitos dos meus amigos sabem eu sou o tipo de pessoa que sempre disse que nunca teria um blog, mas o "Cheiro" nasceu porque na última semana antes de vir pra cá eu senti a necessidade de fazer um diário de campo pra registrar o que eu fosse viver aqui. Como fazer isso no caderno ia dificultar a socialização do material depois eu pensei em criar um blog p dividr de forma mais interativa as vivências. Fora que foi chegando o dia de viajar e eu fui percebendo o quanto eu ia sentir falta do contato com os meus amigos e o blog também era uma forma de me fazer sentir menos distante deles.
        O nome (ô coisa dificil de decidir, viu?!) veio um pouco depois que eu fiquei matutando em casa sobre o blog. Logo quando eu comecei a procurar os serviços de saúde aqui de MG eu ia ficar estagiando em um CAPS que se chama Maria Bonita, infelizmente visitá-lo não deu certo, mas desde o início adorei o nome e o meu histórico de discussão de gênero dentro do movimento estudantil não me deixaria achar diferente! (rs) daí mais ou menos uns 4 ou 5 dias antes de viajar eu comprei um perfume que se chama "cheiro de moça bonita" e eu adorei muito. Um dia de noite que eu fiquei matutando isso de cheiro e de perfume e como eles são efêmeros, acabam, e também têm a capacidade de marcar e fazer a gente recordar,  reviver esperiências e por vezes a lembrança ser somente pelo cheiro que estava presente naquele momento. Pronto fiz a relação..meu projeto de blog que já nasceu com data definida pra acabar tem um pouco isso de ser como os cheiros. E como a palavra "bonita" já estava no meio do nome do perfume só bastou trocar a "moça" pela "Maria". Cheiro de Maria Bonita!

 Ai.. acho q é isso p começar.. vou tentar escrever aqui religiosamente todo dia, mas também eu não garanto. Espero que a idéia seja boa pra todo mundo e que de fato esse espaço seja de compartilhar idéias!
Um xêru p todo mundo!