terça-feira, 14 de junho de 2011

"Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem."
(O bicho - Manuel Bandeira)


            Coloquei o poema de Bandeira porque ainda não assimilei o estado de coisificação a que as pessoas podem ser submetidas e se deixarem submeter. Hoje foi a atividade do 'cuidando da boca' la na Pedreira. Poucas pessoas participando de fato do evento, mas sem dúvida um passo interessante na construção do Consultório de Rua. No final da atividade fomos ainda fazer campo e conversar com alguns usuários. Dentre eles estava um jovem de 20 anos enrrolado em um cobertor no meio fio pedindo ajuda pra gente. Ele contou que estava com fome, sede, taquicardico, tossindo muito com catarro esverdeado e febre há alguns dias. Inicialmente a gente pensou em ligar pro SAMU, mas eles não receberam a nossa ligação como uma demanda urgente. Dai conversamos pra gente tentar leva-lo na emergência do hopital que fica logo na rua do lado onde nós estavamos. Apesar da insistente reclamação com relação a situação na qual ele se encontrava, quando nos dispomos a irmos junto com ele na emergência ele se recusou e disse q naquele momento dormiria um pouco e depois iria sozinho no hospital.
           Esse momento da parede, do ponto que o outro estabelece na relação de que "vc só vai até aqui" é curioso! Ainda mais naquela situação. Porque  a recusa do apoio naquele momento? Porque preferir dormir se ele mesmo se encomodou com a situação a ponto de nos abordar na rua enquanto estavamos passando? Será que todas as reclamações que ele fez, de fato ele as escutou enquanto falava? Será que elas o encomoda mesmo a ponto de faze-lo tomar qualquer atitude? Será q a transformação em bicho ou pior, em coisa já se deu a tal ponto de que ele não se importa mais? Poucas respostas... talvez nenhuma até agora. E eu quero começar a aprender a enxergar mais possibilidades de fazer porque os questionamentos sem apontamentos para uma direção de ação não valem.

xêru em todos!

Um comentário:

  1. Pois é nega, voltamos outras vezes e este jovem estava sentado, com seu cachimbo de crack em meio a um grupo de pessoas. Como ele estava sentado foi possível visualizar seu corpo que estava totalmente emagrecido... ao se indagado sobre o outro dia afirmou " que já estava melhor" e mais uma vez não deu atenção ao nosso diálogo e não quis nos ouvir... sempre penso na conversa que nós duas tivemos indo embora naquele dia, em tentar enxergar além do que aqueles indivíduos nos apresenta e com isso elaborar novas formas de intervenção... mas, confesso, que isto é muito difícil e ainda não achei a resposta, mas com calma e persistência acredito que será possível...

    ResponderExcluir